Os olhos verdes de Mardonio Oliveira se comprimem, pequenos, quase orientais, quando o sorriso vem. O homem de 30 anos que sorri com os olhos é professor titular da Universidade Federal do Cariri, adora sair para dançar e pegar praia nas férias. Mais caseiro, João Batista, também docente, 29 anos, não nega sua origem: cabeça chata, andado quadrado, alegre, bem-humorado e de expressão pacífica no rosto, um verdadeiro cearense.
Os dois seguem suas vidas normalmente. São casados com outras pessoas. Passeiam. Compram roupas. Pegam ônibus. Ficam presos no trânsito. Fazem comida. Lavam louça. Pagam contas etc. No entanto, João e Mardonio são surdos e isso significa que precisam enfrentar dificuldades que vão desde cancelar um cartão de crédito, ser atendido numa loja até conseguir um emprego, situações que só quem está nas estatísticas de pessoas não-ouvintes são obrigadas a enfrentar.
Equipe de Acessibilidade da UFCA com Mardonio e João. Da esquerda para a direita: Sabrina Rodrigues, bolsista; Francileuda de Lima, assist. administrativa; Mardonio Oliveira, docente; João Batista, docente; Cristina Feitosa, coordenadora; Rute Leandro, tradutor intérprete; Francisco Celestino, tradutor intérprete.
Pelos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apresentados no Censo de 2010, pelo menos ¼ da população brasileira, ou 23,9%, possui algum tipo de deficiência visual, auditiva, física ou intelectual. A taxa equivale a 45,6 milhões de pessoas e, desse montante, mais de 2 milhões possuem deficiência auditiva grave e 344 mil são surdos.
Apesar dos altos números de pessoas nesta condição, são poucas as ofertas de educação e de trabalho. “Nossa maior barreira é a comunicação” diz João Batista, com ajuda de um intérprete. “Muitas vezes os empregadores não nos contratam porque não sabem se comunicar (em Libras) e querem obrigar o surdo a falar”, ele continua e explica que é dever das empresas se adaptarem às pessoas com deficiência e não o contrário.
“Muitas pessoas nos consideram incapazes, mas nós não somos”, João Batista, professor universitário surdo
Em 1991 foi aprovada a chamada “Lei de Cotas” (N° 8.213), que obriga empresas com 100 ou mais empregados a reservar 2% das vagas para pessoas com deficiência, aumentando a porcentagem de acordo com o quadro de funcionários, sendo:
De 100 a 200 empregados ________ 2%
De 201 a 500 _________________ 3%
De 201 a 500 _________________ 3%
De 501 a 1.000 ________________ 4%
De 1.001 em diante _____________ 5%
Até mesmo quando há vagas, estas estão localizadas em mercados específicos e, consequentemente, limitados, como setor da indústria do calçado, no caso região do Cariri. “As empresas não acreditam na capacidade do surdo”, Mardonio afirma de cara fechada.
Mas também brinca com a limitação do próprio mercado ao relatar seu desempenho superior aos dos colegas ouvintes quando trabalhava em uma empresa de seguros de saúde. “Sem distrações, eu fazia tudo muito rápido, enquanto os outros tinham pilhas de papéis para cumprir”, diz em tom jocoso, mas decidido quanto à autonomia dos surdos. A hora de um aumento salarial, porém, nunca chegava, enquanto os salários dos contratados ouvintes frequentemente subiam.
INCLUSÃO NA INFÂNCIA E NA SALA DE AULA
Apesar da pouca idade, o currículo lattes de Mardonio é extenso e invejável, assim como seu bronzeado. Professor de Libras na UFCA, também já foi docente da Universidade Federal do Ceará, em Fortaleza. Mas sem navegar em mar de flores, ele precisou passar por perrengues antes de chegar onde hoje está. Na infância, era frequente sua frustração com a dificuldade de comunicação no núcleo familiar. O mesmo aconteceu com João. “Eles não entendiam o que eu queria dizer e eu me frustrava por isso, o que refletia no meu comportamento”, ele relembra a angústia de ver todos conversando ao seu redor e ele sem entender o que acontecia.
“Se tivéssemos acessibilidade em Língua de Sinais, os telefones fossem adaptados, a sociedade ouvinte abrisse a mente para isso, tudo seria normal e não haveriam barreiras para nós”, Mardonio Oliveira, professor universitário surdo.
O mesmo Censo do IBGE também revelou a disparidade no âmbito educacional. “Para cada criança de 6 a 14 anos com pelo menos uma das deficiências investigadas que frequentavam escola da rede particular havia seis crianças com a mesma condição estudando em escola da rede pública”. Muitas vezes os equipamentos de educação são falhos em garantir a qualidade do ensino para crianças surdas previsto na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.
(Foto: Cesar Brustolin / SMCS)
Problema na base, reflexo no fim. Apenas sete estudantes com algum tipo de deficiência (parcial ou completa) foram aprovados para a UFCA no SiSu para o ano letivo de 2016.1. Em resposta ao baixo número, Cristina Feitosa, coordenadora de Acessibilidade da UFCA, afirma existirem planos de inclusão de cotas para pessoas com deficiência.
Como peça fundamental do quebra-cabeça que é uma Universidade Federal, a Coordenação de Acessibilidade se pauta no planejamento de ações inclusivas, seja na capacitação de professores e de servidores à adaptarem de seus métodos de trabalho, como fiscalizar e exigir da Infraestrutura que a arquitetura não seja barreira entre o estudante e o ensino.
Símbolo da Língua Brasileira de Sinais/LIBRAS (Imagem: Reprodução)
SEJA EDUCADO, AJA CORRETAMENTE
Não existe “surdo-mudo”.
LIBRAS é a segunda língua oficial do Brasil. Pessoas surdas geralmente cativam o Português como segunda língua.
Quando se dirigir a uma pessoa surda, fale diretamente com ela, dando atenção ao contato visual e fique em ambiente iluminado.
Seja expressivo ao falar. Caso saiba algo em LIBRAS, tente.
O intérprete não é professor, ele apenas traduz.
Se entender que a pessoa com deficiência precisa de ajuda, pergunte antes de tomar qualquer atitude.
Não tome a pessoa com deficiência como incapaz. Isso é rude.
Logotipo do Instituto Transformar (Imagem: Reprodução)
APOIO
Algumas iniciativas apoiam a vida e desenvolvimento de pessoas surdas em Juazeiro do Norte. Conheça algumas:
Instituto Transformar (INTRA)
Atividades de segunda a sexta-feira de 13h30min às 17h30min
Rua 1º de Maio, 110 – bairro Pio XII – esquina com Rua Dom Bosco – Juazeiro do Norte
Telefones: (88) 3511-9497 / (88) 9 8817-9777 / (88) 9 8813-3640 / (88) 9 9935-7961
Rua 1º de Maio, 110 – bairro Pio XII – esquina com Rua Dom Bosco – Juazeiro do Norte
Telefones: (88) 3511-9497 / (88) 9 8817-9777 / (88) 9 8813-3640 / (88) 9 9935-7961
Na mesma sede da INTRA, também funcionam:
Associação de Intérpretes de Língua de Sinais da Região Metropolitana do Cariri (APILMSC)
Telefones: (88) 9 9919-7918
Telefones: (88) 9 9919-7918
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